Controle de câmbio gera saque de dólar na Argentina
Por César Felício | De Buenos Aires – A iniciativa do governo argentino de impor controles fiscais para limitar a compra de dólares por pessoas físicas, anunciada no primeiro dia de novembro, produziu efeito oposto ao esperado: além de a demanda por dólares não se desaquecer com o aumento da cotação no mercado informal, diminuiu a confiança no sistema bancário. Houve queda nos depósitos em dólar no período até 25 de novembro. Mas a tendência de retiradas começou a ser revertida nos últimos dias.
Segundo dados da consultoria Econométrica, elaborado a partir de dados do próprio Banco Central, o valor acumulado de depósitos em contas correntes em dólar caiu de US$ 14,8 bilhões para US$ 12,2 bilhões. Na Argentina, desde 1992 é legal manter contas correntes em moeda americana. A queda acumulada dos depósitos em dólar foi de 17,6%. Não houve a mesma queda nas contas em pesos, que variaram no período de AR$ 251 bilhões para AR$ 250 bilhões.
Segundo o autor do relatório, Ramiro Castiñera, a velocidade das retiradas, depois de atingir US$ 1,5 bilhão na primeira quinzena do mês, desacelerou fortemente na segunda metade de novembro. Entre os fatores que contribuíram para a normalização, está a estabilização das reservas do Banco Central, que diminuíram a velocidade de queda e estão hoje em US$ 44,7 bilhões, uma perda por dia útil da ordem de US$ 80 milhões, a metade do que ocorria em novembro.
As perdas de depósitos perderam fôlego como decorrência de outra medida do governo de Cristina: a obrigação das empresas de mineração e de petróleo em converter para a moeda nacional o saldo de suas vendas ao exterior. Com a estabilização das reservas, diminuiu o receio tanto de medidas ortodoxas, como a desvalorização cambial do peso, quanto heterodoxas, como o bloqueio das contas em moeda estrangeira.
Para o economista Dante Sica, sócio da consultoria Abeceb, o fim do ano tende a desestimular movimentos bruscos do poupador médio, em função dos feriados e da posse da presidente Cristina Kirchner para um novo mandato. Mas não está clara a tendência de reversão de outro indicador fundamental na economia argentina, a formação externa bruta de ativos, ou o que é chamado comumente de "fuga de capitais".
Pela expressão, o que os especialistas argentinos querem designar é o entesouramento por parte de empresas e pessoas de bens e serviços recebidos no exterior, algo que não necessariamente envolve uma corrida aos bancos, já que em geral o dinheiro não chega a ingressar no sistema financeiro argentino.
Nos nove primeiros meses do ano, a "fuga de capitais" chegou a US$ 18 bilhões, e as projeções indicam para o montante de US$ 24 bilhões até o final do ano. "O novo ministro da Economia, que deve assumir com o novo mandato da presidente Cristina Kirchner, pode ser um elemento importante para reverter esta tendência, sobretudo se sinalizar que a Argentina pretende voltar ao mercado internacional de financiamento, caso conclua as negociações com o Clube de Paris", afirmou Sica.
Fonte: Valor Econômico